Os antigomobilistas de língua inglesa têm uma expressão (sem uma boa tradução em português) para designar a descoberta de um veículo clássico original abandonado por décadas em um celeiro: “barn find”.

O barn find é o sonho de qualquer colecionador de automóveis antigos. Algo tão raro que praticamente virou lenda na comunidade antigomobilista. Volta e meia aparece alguém com uma história dessas nos encontros de clássicos. Nem sempre são verdadeiras, é claro. Mas a verdade é o que o sonho do barn find às vezes também pode se transformar em pesadelo, como se verá mais adiante…

Hoje em dia, com a internet e o amplo acesso à informação, qualquer pessoa, por mais desapegada que seja de bens materiais, sabe que um veículo antigo geralmente é uma peça valiosa. Raridades não permanecem mais por muito tempo abandonadas em celeiros ou garagens empoeiradas. Quando aparecem, geralmente o proprietário – ou o herdeiro – quer uma fortuna pela “mosca branca”. Mesmo sabendo que a raridade ainda poderá exigir muito tempo e dinheiro para sua completa recuperação.

O mais espetacular barn find de que se tem notícia foi a descoberta, em 2014, de parte da coleção de automóveis do magnata francês dos transportes Roger Baillon, escondida em galpões de uma fazenda no interior da França. A famosa Coleção Baillon começou a ser formada ainda na década de 1950. O empresário pretendia construir um museu para os mais de 200 automóveis clássicos que conseguiu reunir. Mas, no final da década de 1970, Baillon enfrentou sérias dificuldades e suas relíquias acabaram sendo requisitadas para saldar dívidas.

Com a ajuda do filho Jacques, o empresário teria escondido pelo menos 60 dos mais valiosos modelos que possuía na tal fazenda. Esse tesouro permaneceu oculto até a morte de Jacques, em 2013. Revelado ao mundo pelos herdeiros da família, muitas peças – mesmo em péssimo estado de conservação – acabaram sendo arrematadas, por verdadeiras fortunas, num concorrido leilão europeu, em 2015. Algumas foram restauradas, outras não.

Restauração. Aqui o sonho pode se transformar em presente de grego. Com os altos custos atuais da mão de obra especializada e de peças originais, um barn find pode não ser motivo de tanta comemoração, pelo menos aqui no Brasil. Sobretudo se o veículo estiver muito degradado. A menos que se trate de um modelo raro, realmente excepcional, de altíssimo valor no mercado, o preço final do veículo encontrado possivelmente ficará aquém do valor gasto na sua restauração.

Mesmo se o achado estiver em boa forma, muita coisa precisará ser feita para que um automóvel que ficou parado por 20, 30 anos ou mais volte a rodar com segurança. Mangueiras de borracha ou plástico, por exemplo, devem estar ressequidas. Fluidos de freios, da direção (hidráulica), do motor, da caixa de câmbio, etc, certamente terão de ser trocados. Motor, caixa, suspensão e freios precisarão ser revisados antes de voltarem a trabalhar. Velas e correias terão de ser substituídas. A fiação elétrica precisará ser toda revisada, e a bateria substituída por uma nova.

Pontos de ferrugem deverão ser eliminados. Se um bom polimento com cera não reabrir a cor e o brilho originais da carroceria, uma nova pintura terá de ser providenciada. O couro dos bancos e a tapeçaria talvez precisem ser hidratados lavados ou substituídos, e o interior do veículo desodorizado. Ou trocados completamente. A documentação precisará ser atualizada (se o bem fizer parte de um inventário, a transferência da propriedade pode demorar), entre outras providências.

Como se vê, muita coisa precisará ser feita para que um barn find se torne, de fato, uma fonte de alegria e não uma dor de cabeça. Contudo, nada pode ser tão gratificante para um antigomobilista quanto descobrir, sob muita poeira, tralha velha e até cocô de galinha, a raridade com a qual ele sempre sonhou.

Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.

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