Nesta segunda parte do artigo que dedicamos ao Bugatti Type 57 SC Atlantic, e cuja primeira parte poderão revisitar aqui, debruçamo-nos sobre o chassis n.º 57374, aquele que é considerado, unanimemente, como o mais original dos três Atlantic sobreviventes.

Este veículo que actualmente pode ser visitado por quem se desloque ao “Mullin Automotive Museum” na Califórnia e que ilustramos nas fotografias que se seguem, foi o primeiro Atlantic a ser produzido, é o único sobrevivente na configuração “Aéro Coupé” e o mais parecido mecanicamente com o concept car “Aérolithe Elektron Coupé”; aquele cujo paradeiro se desconhece, e acerca do qual discorremos na primeira parte.

Traçando a cronologia do veículo em questão, sabemos que o “Aéro Coupé” foi encomendado a 23 de março de 1936 pelo Barão Victor Rothschild através de encomenda efectuada junto da “Charles Sorel”, distribuidora da Bugatti em Londres, tendo a sua construção sido concluída a 31 de agosto de 1936, cerca de 5 meses depois.

Os registos indicam que o “Aéro Coupé” foi entregue no dia 02 de Setembro de 1936, em Londres, ao seu primeiro proprietário. Sabe-se também que os cerca de 800 km que distam entre as duas localidades (Molsheim em França e Londres em Inglaterra) foram cumpridos a “rolar”, com a excepção dos poucos quilómetros líquidos do percurso. Tendo em conta que as estradas do velho continente na década de 30 do século passado eram no mínimo sofríveis, em comparação com os padrões actuais, temos de salientar que aqueles primeiros quilómetros foram cumpridos de forma eficaz. Começava assim a ser escrita, desde muito cedo, a brilhante história desta verdadeira lenda automotiva.

Viajando no tempo, percebe-se agora a atenção ao detalhe e o serviço exclusivo que a Bugatti e os seus parceiros comerciais já prestavam aos clientes há 80 anos atrás. Tratando-se naturalmente do mais avançado, mais luxuoso e exclusivo veículo automóvel de então, ficou acordado que um colaborador da “Charles Sorel” – empresa onde Victor Rothschild realizou a encomenda – teria a incumbência de levantar o veículo na fábrica e entregá-lo pessoalmente ao futuro proprietário. O colaborador designado foi o Sr. Emil Mischall, o único vendedor da referida empresa, e feliz contemplado para realizar a primeira viagem deste primeiro Atlantic de produção.

O início dessa “glamourosa” viagem foi devidamente documentada com a foto seguinte. Naquela, podemos apreciar o “Aéro Coupé” à saída da fábrica em Molsheim.

A importância histórica desta foto é inigualável, já que a mesma foi tirada pelo seu criador, o próprio Jean Bugatti, registando o momento em que o Sr. Emil Mischall iria dar início à viagem, para, pessoalmente, entregar o chassis n.º 57374 ao Barão Victor Rothschild no referido 02 de Setembro de 1936.

Cumprida que foi, com sucesso, a entrega, Victor Rothschild, à época com 26 anos, fruiu do seu Atlantic ao longo de 5 anos, por norma nas ruas de Londres, mas também nas suas frequentes deslocações a Cambridge, onde havia estudado e onde mantinha uma vida social bastante activa.

Não será difícil imaginar o impacto causado por este jovem e abastado aristocrata, nas suas deslocações diárias na sombria Inglaterra dos anos 30 do século passado, quando surgia ao volante deste veículo, que ainda nos dias de hoje não encontra paralelo!

Relatos da época indicam que por volta de 1941 e após intensa utilização por parte do seu proprietário, o motor do Atlantic “estoirou”, a intensa vida social do Lorde inglês cobrava assim a sua factura. Em consequência, sabe-se que foi votado ao abandono, segundo consta passou algum tempo ao relento num descampado, até ser, posteriormente armazenado debaixo de tecto.

Passadas oito décadas, sabendo agora o rumo que história tomou, e os acontecimentos fracturantes que incidiram sobre o velho continente naquela época, não nos é difícil imaginar que em plena II Grande Guerra Mundial, vender um Bugatti com aquelas características não era a tarefa mais simples; até porque o mesmo envolveria avultados custos com todos os trabalhos mecânicos necessários para o voltar a colocar na estrada. No entanto, a venda acabou por se consumar em Outubro de 1941, sendo adquirido na altura por T. P. Tunnard Moore e Robert Arbuthnot, sócios da “High Speed Motors” de Londres.

Há poucos registos referentes ao veículo entre essa data (1941) e o ano civil de 1971. Aventa-se que durante esse período terá passado por cerca de 5 proprietários, terá também sido alvo de mudança de cor pelo menos 3 vezes, até que em 1971 surge novamente sob o radar dos entusiastas, sendo colocado a leilão pela prestigiada Sotheby’s.

O valor que o “Aéro Coupé” atingiu nesse leilão bateu todos os recordes à época, a importância histórica do veículo era assim definitivamente consolidada, tendo sido arrematado pelo conhecido coleccionador, o Dr. Peter Williamson, por 59.000,00 USD. Uma fortuna para os padrões da altura!

O Dr. Peter Williamson foi o mais longo proprietário deste veículo, já que, o chassis n.º 57374 permaneceu na família até ao ano de 2010. Durante aquele período de 39 anos, mais especificamente em 2001, solicitou-se aos especialistas Scott Sargent e Jim Stranberg o completo restauro do veículo. Esse restauro veio, por fim, devolver o “Aéro Coupé” à sua condição original, tal como havia saído de fábrica 65 anos antes.

Após o referido restauro que lhe devolveu a “glória original”, o Atlantic em apreço ganhou o galardão de “Best of Show” de Pebble Beach em 2003, e mais recentemente, no ano de 2018, o “Peninsula Best of the Best”, tal como se ilustra nas fotografias seguintes.

Voltando um pouco atrás, temos de salientar o ano de 2010, pois é nesta data que se inicia um novo período na vida deste veículo. É naquele ano que sai da propriedade da família Williamson para as mãos de Rob Walton (presidente da Wal Mart) e sua mulher Melani Walton, e o Mullin Automotive Museum, em regime de co-propriedade.

E é neste museu precisamente, que o Bugatti Type 57 SC Atlantic “Aéro Coupé” chassis n.º 57374 se encontra actualmente em exposição de forma permanente.

A importância deste veículo para aquela instituição é incontestável, é, e continuará a ser, o cabeça de cartaz do museu, e o principal chamariz para quem o visita. Representa o pináculo da “Art Déco” sobre rodas dos carroçadores/artesãos franceses das décadas de 1920 e 1930. E, ainda que ladeado por exemplares incríveis da mesma época, como os Delahaye, Avions Voisin ou Talbot Lago, o seu brilho e a sua importância histórica e estética, nunca serão ofuscadas.

Em jeito de conclusão, resta-nos dar conta que, de acordo com a análise e informação prestadas pela leiloeira Gooding & Company na altura da transacção (2010), e ainda que a mesma tenha sido efectuada a título privado, estima-se que os valores envolvidos se cifraram na ordem dos 35 a 40 milhões de dólares.

À luz da análise ao mercado dos automóveis com interesse histórico, que podemos agora efectuar quase uma década depois; e projectando, desde já, a evolução em termos de valorização, que uma “obra de arte” desta natureza poderá alcançar caso algum dia volte a ser transaccionado em mercado, somos em crer que se tratou de mais um bem-sucedido investimento por parte dos seus actuais proprietários.

Na próxima edição do “Cápsulas do Tempo”, parte III deste artigo, dedicar-nos-emos ao chassis n.º 57473, aquele que é, certamente, o mais “controverso” Atlantic dos três sobreviventes.

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